Ótimo artigo sobre o curso do Clube: Curso Básico de Trekking – Explorador.

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http://www.bas.org.br


Formando Exploradores

Já há algum tempo uma diferente necessidade inquietava minha habitual rotina de atleta outdoor: a de dar um passo além das simples trilhas na natureza, competições e roteiros estruturados.

Procurava algo que realmente me desafiasse e me proporcionasse uma conexão mais profunda com o mundo natural, principalmente com minha própria natureza interior.
Não tinha uma experiência desse nível desde minha participação em uma ultramaratona de 217 km na Serra da Mantiqueira (para saber como foi esse perrengue, leia meu primeiro artigo – “A Corrida das Montanhas”). A oportunidade surgiu no final-de-semana dos dias 15 e 16 de outubro.

Através de uma inédita iniciativa, o guia de trekking Tiago Korb ofereceu um curso de Trekking Básico, específico para a formação de exploradores. “Esse curso é diferente porque seu enfoque é na abertura de novas trilhas e roteiros, desbravando regiões de difícil acesso, normalmente não abordadas nos passeios de trekking e cursos convencionais.

Por isso, a formação dos futuros guias é plena, capacitando-os a interpretar os sinais da natureza e as características dos diferentes ambientes.” – explicou Korb.
Durante o curso, testemunhei a verdadeira filosofia de respeito à natureza, camaradagem entre os colegas e espírito de auto-suficiência. “É essa a essência que quero transmitir aos meus alunos.” – revelou o instrutor.

Formado em Química e ex-praticante de corrida, Korb descobriu sua verdadeira paixão em 2003, quando participou de sua primeira trilha. Largou tudo para criar, em 2007, o Grupo Trekking de Santa Maria. Desde lá, já realizou travessias em vários estados, desbravou novos conhecimentos e explorou grande parte dos trechos intocados da Serra Geral do Rio Grande do Sul, onde está inserida sua cidade natal.
Além de conduzir grupos, também abriu, recentemente, uma loja virtual de equipamentos próprios para a atividade.

Tendo descoberto o grupo através da rede mundial, recebo periodicamente notícias sobre os eventos. Foi assim que tomei conhecimento do curso e percebi, de imediato, que ele preencheria a lacuna que eu tanto buscava.

Como as vagas estavam limitadas para 5 alunos, na mesma hora realizei minha inscrição, com quase um mês inteiro de antecedência.

TRAJETO: Mapeamento do percurso com recursos 3D do Google Earth. À direita da imagem está
localizada a cidade de Santa Maria; ao centro, Silveira Martins e, à esquerda, Itaara.

Destacam-se os imponentes vales e morros da Serra Geral.
O curso contou com 3 horas de aulas teóricas, sendo abordadas questões como otimização na organização da mochila e equipamentos, noções de leitura em mapa topográfico e orientação.

Outras 35 horas de práticas foram programadas para uma travessia de 32 km entre os municípios de Santa Maria, Itaara e Silveira Martins, com um acampamento selvagem intercalado. Acordando cedo, percorri de ônibus as quatro horas que separam Porto Alegre de Santa Maria, partindo na madrugada quente do sábado, 15 de outubro.

Ao chegar à rodoviária, onde o grupo havia combinado se encontrar, às 6:30, conheci o instrutor Korb e meus colegas dos próximos dois dias: Vágner (guia auxiliar), Lucas, Tiago, Vinícius e Jaqueline, uma estudante de engenharia que, a exemplo de todos, revelou uma grande determinação ao longo do trajeto.

Todos com boa formação acadêmica e boa bagagem em atividades de natureza, alguns ex-militares, formamos um grupo sólido e homogêneo, de alto nível e fácil relacionamento. Após aprendermos valiosos ensinamentos sobre a melhor compactação dos equipamentos na mochila cargueira, seguimos para o início do trekking. O grupo partiu da igreja da comunidade de Arroio Grande, no interior do município de Santa Maria.

Com minha mochila de 14 kg devidamente regulada, segui o grupo até a divisa municipal com Silveira Martins, atravessando trilhas de terra e matas muito puras. Atendendo as ordens do instrutor, o mapa topográfico ia sendo passando de mão em mão para que todos pudessem praticar o reconhecimento de pontos e sentir o gostinho de guiar o grupo por alguns quilômetros.

Identificamos casas, linhas de transmissão elétrica, arroios e elevações de até 450 metros de altitude. Interpretamos as linhas de nível do solo, diferenciando regiões de subidas e descidas no relevo.

As comunidades interioranas desses municípios são pacatas e hospitaleiras, facilitando a prática do trekking em suas terras e nas regiões adjacentes. A beleza desse lugar se revela, sobretudo, pela pureza de seu povo, seu ar e suas águas. Bioindicadores eram facilmente visíveis: nas árvores, o líquen crostoso de coloração avermelhada e, nos arroios, o crustáceo lagostim testemunhavam um ambiente livre de poluentes industriais.

Após um rápido lanche de trilha, ao meio-dia, continuamos o trekking exploratório através de um canyoning pelo leito pedregoso do arroio Lobato, até chegarmos à maravilhosa Cascata da Divisa. Em seguida, veio outra boa surpresa: a escalada de 20 metros por uma parede rochosa (sugiro um 2º grau para essa via), bem ao lado do curso da cachoeira.

Após outros segmentos de escalaminhadas, chegamos ao ponto superior da cachoeira, totalizando um impressionante desnível vertical de 122 metros (medido pelo altímetro barométrico do instrutor Korb).

Assim, seguíamos o trajeto marcado na carta, coletando frutas pelo caminho, observando rotas de fuga e lutando para vencer a vegetação fechada de espinheiras (as chamadas unhas-de-gato) durante as escaladas nas encostas.  Foram várias as escoriações pelo corpo mas, à medida que avançava, aprendi a negociar e administrar melhor os obstáculos naturais.

Nesse primeiro dia, destaco também o nosso surpreendente encontro com duas jararacas, que descansavam embaixo de uma grande pedra próxima a uma cachoeira.  Dona de um veneno poderoso, não é uma boa ideia ser picado num ambiente de difícil evasão. No final da tarde, seguindo pela chamada Trilha da Bocaina, chegamos ao local ideal para nosso acampamento selvagem.

Até esse momento havíamos percorrido quase 16 km ao longo de 8 horas. Procuramos um local que fosse próximo de uma fonte de água para nossa subsistência e que, ao mesmo tempo, estivesse longe o bastante para escaparmos de um eventual alagamento. Após limpar o solo, montar as barracas e tomar um banho no arroio, o grupo preparou o jantar ao redor de uma calorosa fogueira.

A grande vantagem do cansaço físico é que, geralmente, ele se converte em um sono agradável, ignorando o frio e outros inconvenientes que, fosse uma situação normal do cotidiano, teriam trazido relativo desconforto.

Após uma excelente recuperação, estava pronto para enfrentar a outra metade do percurso, no domingo. Nesse dia, outras surpresas estavam por vir.  Agora, no território municipal de Itaara, os próximos 16 km seriam ainda mais técnicos e desafiadores. Dentre os principais desafios, destaco a escalada de 15 metros pela parede de um canyon, seguida da travessia de uma extensa mata fechada pela encosta.

Atravessamos trilhas para todos os gostos: de terra, de barro, de seixos e de pedras, transformando cada passo numa frenética e ritmada dança com os elementos naturais. Muitas dessas trilhas foram abertas pelo próprio grupo, caracterizando o ato de explorar, conduziam a terrenos descampados no topo dos morros.

Outras levavam a lugares de difícil passagem, exigindo a capacidade de improvisação e interpretação do meio ao redor.
Entretanto, o sofrimento foi recompensado através de uma impressionante sequência de cachoeiras, algo que raramente havia testemunhado nos meus anos de aventuras pelas matas da Serra Gaúcha e Campos de Cima da Serra.

Creio que muitas delas haviam sido descobertas há pouquíssimo tempo. Uma, em especial, muito me chamou atenção, talvez por uma curiosa formação em sua base. As pedras esculpidas pela ação da água e do tempo lembravam uma espécie de “portal”, semelhantes a dois imponentes totens, guardando a pureza de suas águas.

Ao final do curso, mesmo tendo caminhado por outras 9 horas, ainda me sentia disposto para mais alguns dias naquele lugar magnífico. Contudo, a jornada estava se aproximando do fim. Durante a volta à cidade, Tiago Korb parabenizou os novos exploradores pela conclusão do curso, incentivando-nos a aperfeiçoar a prática nas próximas trilhas, até nos sentir confiantes o bastante para guiarmos grupos de aventureiros sob nossa responsabilidade.

O resultado final da experiência não poderia ter sido melhor. O curso foi de alto nível. Aperfeiçoei minha técnica e assimilei novos conhecimentos. Para a próxima etapa, Korb planeja a abordagem de temas relacionados ao planejamento logístico de uma expedição com auxílio de ferramentas computacionais, como softwares e aparelhos de GPS.

Além disso, travessias maiores de vários dias também são previstas para que os alunos exercitem seu aprendizado e aprimorem ainda mais o condicionamento físico. A amizade, união, determinação e vontade de colaborar e aprender de todos os integrantes foi algo realmente marcante.

Espero manter contato com meus novos amigos e encontrá-los em futuras expedições. Agradeço ao Tiago Korb pela oportunidade.

À medida que se aproximava o momento de meu regresso, a lembrança de minhas responsabilidades na capital do Estado conduziam-me de volta àquela áspera realidade que me aguardava. Porém, a riqueza dos momentos intensamente vividos mantinham acessa minha felicidade.

EXPLORADORES: Em frente da igreja de Arroio Grande, da esquerda
para a direita: o autor Marcelo Nava, Tiago Oliveira, Jaqueline,
Vágner, Lucas e Vinícius (Foto: Tiago Korb).

 mario_romaMarcelo Nava
mjanava@gmail.com

Multiatleta de esportes de aventura e atividades outdoor. Praticante de ultramaratona, corrida em trilha, mountain bike, trekking, camping e montanhismo. Dentre as principais competições destaca-se a participação na BR Ultramarathon (217 km na Serra da Mantiqueira), Gramado Adventure Running (61 km) e Supermaratona Cidade de Rio Grande (50 Km).Possui graduação e mestrado em Engenharia Biomédica e atualmente trabalha como engenheiro de projetos no Centro de Microgravidade da PUCRS (centro de pesquisa dedicado ao estudo da adaptação humana ao espaço e a ambientes extremos).

Fotos do Curso estão disponiveis no link: http://www.facebook.com/#!/media/set/?set=a.278668672153889.68041.189899237697500&type=3
Link para o convite do curso: http://www.clubetrekking.com.br/dica/?dica=curso_de_trekking_basico___santa_maria_rs

Att.
Tiago de Pellegrini Korb
55 8407 1646 (Oi)
www.lojaclubetrekking.com.br
Facebook
Skype: tiagokorb
MSN: tiagokorb@hotmail.com

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