RELATO: Caminhada de 2 dias nos cânions de Ivorá RS.

Travessia de Cânions
Como parte de meu treinamento para a Expedição aos Andes, participei, nos dias 17 e 18 de dezembro, de uma emocionante travessia de dois dias. O evento ocorreu na região central do Rio Grande do Sul, passando por cânions pouco conhecidos e cachoeiras mirabolantes.

A travessia de cânions talvez seja uma das vertentes mais interessantes do trekking. Não há nada mais lindo do que se deparar, no meio de uma floresta densa, com um “rasgo” profundo no terreno, revelando-se como uma impressionante fenda, aberta por gigantescas forças da natureza.

De acordo com a Enciclopédia Virtual Wikipedia, cânion ou desfiladeiro são termos empregados em geologia para designar um vale profundo com paredes abruptas em forma de penhascos, escavadas por um rio. Também são conhecidos, popularmente, como “gargantas”. A maior parte dos cânions origina-se por um longo e lento processo de erosão fluvial e eólica chamado de voçoroca. Diferentes camadas rochosas pouco consolidadas, a partir de um planalto, são erodidas por um curso de água, criando uma vala. As paredes formam-se quando camadas de rochas resistentes à erosão são encontradas, de modo que a água continua escavando um vale para baixo, mas sem  afetar a rocha dura.

Testemunhei o resultado desses fenômenos ao participar de uma emocionante travessia de dois dias pelo segundo maior conjunto de cânions do Rio Grande do Sul. Turisticamente, os cânions mais lembrados de nosso Estado estão presentes no interior dos Parques da Serra Geral e Aparados da Serra, nos municípios de Cambará do Sul e São José dos Ausentes. Situados na divisa com Santa Catarina, essas impressionantes formações geológicas podem chegar a quase mil metros de profundidade em alguns setores. Formadas pelo deslocamento de placas tectônicas, num passado muito distante, a região conhecida como Campos de Cima da Serra dividiu-se ao meio como uma manteiga quente. Fortaleza, Itaimbezinho e Malacara são os maiores. Cada qual guarda suas particularidades e encantos próprios.

Lá embaixo, riozinhos aproveitadores tiraram partido do caminho mais fácil, direcionando o percurso de suas águas diretamente para lá. Pela visão do rio é fácil concluir que não foram eles que “escavaram” o terreno, como no caso do majestoso Grand Canyon, nos Estados Unidos, onde o Rio Colorado fez sozinho todo o trabalho. Portanto, segundo a definição geológica correta, para serem consideradas cânions, essas gargantas deveriam ter sido originadas pela ação erosiva. Porém, para reforçar o turismo na região, o termo “vende” uma imagem com maior poder de marketing, justificando sua manutenção. Peral seria o termo correto para esse caso. Independente da definição, nada é capaz de reduzir a magnitude de seus encantos naturais.

Com relação às formações da região central do Estado, não sei precisar como se formaram. Apesar de não ter buscado informações científicas aprofundadas, minha observação pessoal indica que essas gargantas foram, sim, realmente originadas pela ação erosiva de águas e ventos, merecendo honestamente o título de cânions.

Tendo como local de encontro a rodoviária de Santa Maria, às 06h15 do dia 17 de dezembro, 13 aventureiros procedentes de diversas cidades do Estado, como Bento Gonçalves, São Borja, Porto Alegre, dentre outras, reuniram-se ao guia Tiago Korb. Em seguida o grupo partiu com uma van fretada até o município de Ivorá, na divisa com Santa Maria.

De lá, percorremos vários quilômetros por uma estradinha de terra, até atingir uma trilha no mato fechado que nos levaria ao ponto inicial do cânion da Piruva e a todas as surpresas dos primeiros 18 km.

De acordo com informações do Clube Trekking de Santa Maria, “o cânion da Piruva faz a divisa natural entre os municípios de Ivorá e Júlio de Castilhos. Com aproximadamente 5,8 Km de extensão, é um dos locais mais belos e preservados da região da Quarta Colônia no planalto central do Estado. Na boca estreita do cânion, os paredões começam com ao menos 50 metros de altura e ganham amplitude até chegar a mais de 250 metros. Ao final, o participante contempla as duas principais cachoeiras: dos Degraus e das Pedras Pretas”.

Ao longo do texto, são apresentadas 23 imagens agrupadas, mostrando os principais momentos da aventura. Todas são de autoria do Clube Trekking de Santa Maria (www.clubetrekking.com.br).

CAMINHADA INICIAL: Em sentido horário, à partir da imagem superior esquerda: grupo de
13 trekkers nos momentos iniciais; visão da cadeia de morros, guardando os cânios da
Piruva e Queda Livre; nossos aventureiros transpondo uma plantação de tabaco; o autor
(camiseta verde), sua cargueira e Daiane Borges (camiseta rosa) seguem pela estrada de chão.

Outras informações fornecidas pelo Clube

Distância: 36,681 Km a pé (aferida por GPS Garmin Etrex Legend)
Nível da trilha: Intermediário 8, de acordo com a classificação adotada pelo Clube.
Altimetria: desnível acumulado de 1.011 metros (aclive) e 1.312 metros (declive); Altitude mínima: 176 metros; Altitude máxima: 479 metros; Altitude média: 342 metros; Inclinação máxima de aclive: 24,5% (6,1% de média); Inclinação máxima de declive: -41,1% (-6,9% de média).
Vestuário e equipamentos: recomenda-se o uso de bastões de trekking e de roupas técnicas ou esportivas para se andar ao sol – com secagem rápida para banhos nas cachoeiras.
Terreno: 46,92% de trilha em campos, matas e cânions (representando 17,209Km);
53,08% de estrada de chão arenosa com pedregulhos de basalto (19,472Km).

À medida que prosseguíamos ao longo do leito rochoso, as paredes aumentavam em altura e diminuíam em distância. Alguns trechos exigiam o domínio de técnicas de natação. De modo a não encharcar os pertences e alimentos, todos ensacaram suas mochilas em sacolas plásticas gigantes ou em sacos estanques, deixando entrar um bom volume de ar para facilitar a flutuabilidade.

Apesar de Korb ter recomendado uma mochila de ataque com até 35 litros para a travessia (os demais equipamentos seriam transportados até o local do camping por meio de um veículo utilitário), não resisti e aproveitei a oportunidade para uma nova etapa em meu treinamento para os Andes. Assim, cumpri todo o trajeto carregando uma mochila cargueira de 60 litros, com cerca de 10 quilos de pertences de minha namorada Daiane. Lá dentro, compactei até dois coletes salva-vidas, de modo a facilitar a segurança dela nos trechos de natação.

TRAVESSIA DO PIRUVA: Em sentido horário, à partir da imagem superior esquerda: leito
rochoso no início da travessia; trecho de natação; participante saltando na Cachoeira das
Pedras Pretas; um dos pontos mais estreitos da travessia, com o reflexo na água de seus
maravilhosos paredões basálticos.

E, assim, chegamos ao final dos 5,8 km de extensão do Cânion do Piruva, culminando com as derradeiras cachoeiras dos Degraus (como o próprio nome sugere, muito boa para uma escalaminhada) e das Pedras Pretas. Na primeira, tomamos um merecido banho e devoramos um delicioso lanche de trilha, enquanto assistíamos à descida de praticantes de rapel.

Quando a água começou a escassear das mochilas de hidratação e cantis, Korb assegurou a boa qualidade das águas da região para consumo humano. Antes de ingeri-las, porém, o guia sugeriu a adição de 1 gota de água sanitária para cada 500 ml de água natural, deixando a substância agir durante cerca de meia hora.

BELEZAS DA REGIÃO: Em sentido horário, à partir da imagem superior esquerda: a orquídea
representa a beleza da flora; o grupo observa a escalaminhada de Korb pelas paredes da
Cachoeira dos Degraus; caminhantes seguem o rumo em direção ao acampamento; a
beleza de um dos muitos paredões de basalto.

Mais tarde, seguimos por uma rota de fuga, constituída por uma trilha fechada na mata,  bastante íngreme, em direção ao caminho que nos levaria ao acampamento selvagem do primeiro dia. Chegando lá, havia um açude barrento para higiene pessoal, um velho galpão para preparar alimentos e muitas árvores para proteger as barracas das ventanias que costumam varrer o local durante a madrugada. O grupo se dispersou enquanto aguardava os assados preparados pelo Korb. Esgotados após uma dura semana, eu e Daiane consumimos uma completa refeição liofilizadada e capotamos em nossa barraca. A partir daí, não vimos mais nada.

LOCAL DO ACAMPAMENTO: Em sentido horário, à partir da imagem superior esquerda:
acampando com vista privilegiada;  o açude próximo ao acampmento; os 13 integrantes
reunem-se para a foto oficial, com os paredões do Piruva ao fundo.

Após uma noite regenerativa, partimos às 09h30 para as emoções do segundo dia. Agora, partiríamos para a travessia do Cânion da Queda Livre, já no município de Júlio de Castilhos, e visitação às cascatas Cara de Índio e da Queda Livre. Ao entrarmos uma propriedade particular, para acessar a trilha em direção ao Cânion da Queda Livre, fomos muito bem recebidos pelo proprietário local. Nesse momento, um fato bastante cômico provocou algumas divertidas risadas: ao nos avistar com nossos equipamentos de trekking (mochilas e bastões), o fazendeiro não perdeu a chance e, inevitavelmente, disparou a interessante comparação: “Vocês parecem astronautas”.

Com menor extensão e dificuldade em relação ao Cânion da Piruva, nesse dia a exigência física foi muito menor, permitindo uma maior contemplação ambiental e demorados banhos nas cascatas.

CURTIÇÃO: Em sentido horário, à partir da imagem superior esquerda: momento de
superação durante a travessia do Cânion da Queda Livre; passando pela sombra de
seus paredões; os aventureiros se divertem nas águas refrescantes da Cascata da
Queda Livre.

Horas mais tarde, todos receberam sementes de árvores nativas da região para o plantio. Procedentes do Horto Florestal da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), as sementes tiveram sua dormência previamente quebrada, facilitando a germinação.

Dentre as principais sementes distribuídas destacam-se as espécies de Caroba, Ariticum do Mato, Dedaleiro, Jerivá, Cedro, Cabreúva, Vassourão Branco, Corticeira do Banhado, Timbaúva, Camboatá Branco, Açoita-Cavalo, Pata-de-Vaca, Angico Vermelho, Araucária, Guabijú, Jacarandá, Angico Rajado, Tucum, Pau Cigarra, Timbaúva e Corticeira da Serra. Típicas da região, algumas correm o risco de extinção. É fundamental que o Clube incentive ações como essa, até mesmo porque, na medida em que a natureza degrada-se, os esportes de natureza também se tornam automaticamente degradados e descaracterizados.

Após curtir as duas cascatas, seguimos mais 4 km por uma estrada de chão até o centro do município de Ivorá, onde a van nos aguardava para o retorno. De volta à rodoviária de Santa Maria, às 19h30, todos recolheram seus equipamentos de camping na caminhonete de apoio e prepararam-se para o regresso a suas cidades. Muito bem planejado e organizado – a exemplo do Curso de Trekking Exploratório – o evento do Clube foi novamente um sucesso.

Após nos despedirmos de nossos novos amigos, Daiane e eu seguimos para tomar o rumo de casa, curtindo a ótima sensação de termos acrescentado mais um inesquecível capítulo em nossa vida de aventuras.

MOMENTOS FINAIS: Em sentido horário, à partir da imagem superior esquerda: a beleza da
fauna da região, demostrada através de espécimes raros e bioindicadores; fazenda de
plantação de fumo; após cumprirem a missão, aventureiros percorrerm os últimos
quilômetros até o centro de Ivorá; a igreja de Ivorá marca o final da travessia.
mario_romaMarcelo Nava mjanava@gmail.comMultiatleta de esportes de aventura e atividades outdoor. Praticante de ultramaratona, corrida em trilha, mountain bike, trekking, camping e montanhismo. Dentre as principais competições destaca-se a participação na BR Ultramarathon (217 km na Serra da Mantiqueira), Gramado Adventure Running (61 km) e Supermaratona Cidade de Rio Grande (50 Km).Possui graduação e mestrado em Engenharia Biomédica e atualmente trabalha como engenheiro de projetos no Centro de Microgravidade da PUCRS (centro de pesquisa dedicado ao estudo da adaptação humana ao espaço e a ambientes extremos).

 Att.
Tiago de Pellegrini Korb
55 8407 1646 (Oi)
www.lojaclubetrekking.com.br
Facebook
Skype: tiagokorb
MSN: tiagokorb@hotmail.com
 
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